Crônica de um problema que persiste por mais de uma década
Há mais de 16 anos, a população de Conselheiro Lafaiete, no centro de Minas Gerais, enfrenta um problema que compromete a qualidade de vida e o desenvolvimento local: o mau cheiro persistente oriundo da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Bananeiras, administrada pela Copasa. Na última segunda-feira (10/8/2026), moradores lotaram a audiência pública da Comissão de Saúde da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) para relatar os inúmeros impactos causados pelo odor forte, comparado ao cheiro de ovo podre, gerado pela emissão de gás sulfídrico (H₂S) durante o processo de tratamento do esgoto no bairro Cidade Satélite.
Esse odor incomoda especialmente à noite e nos meses mais frios, quando fenômenos climáticos como a inversão térmica intensificam a dispersão das emissões. A situação obriga os moradores a conviverem com problemas de saúde, constrangimentos sociais, prejuízos econômicos e queda no valor de seus imóveis, sem que uma solução concreta tenha sido implementada até agora.
Histórico e ações judiciais: o problema que não sai do papel
Desde 2010, ano de inauguração da ETE Bananeiras, a comunidade tenta buscar soluções para conter o mau cheiro. Um ano após sua entrada em operação, já havia ações judiciais em andamento. Laudos técnicos da Agência Reguladora de Saneamento e Energia de Minas Gerais (Arsae-MG), desde 2013, confirmam a persistência do odor desagradável, que permanece sem controle até os dias atuais.
Em 2018, a Copasa firmou um termo de ajustamento de conduta (TAC) com o Ministério Público e a prefeitura local. Apesar disso, as medidas implementadas, como o plantio de eucaliptos e o uso de neutralizadores químicos, não mostraram eficácia significativa. Como consequência, a empresa foi condenada pela Justiça a pagar indenização por danos morais aos moradores afetados, demonstrando o reconhecimento judicial do problema.
Um laudo pericial recente, emitido em agosto de 2026, reforça que a ETE Bananeiras ainda possui potencial técnico para gerar mau cheiro, especialmente por causa da proximidade das residências — localizadas a cerca de 100 metros dos leitos de secagem de lodo e das estruturas operacionais.
Os impactos sentidos pela população e a reação da comunidade
Os relatos apresentados na audiência pública evidenciam os múltiplos efeitos negativos para quem vive perto da estação de tratamento. Além das dificuldades para receber visitas em casa sem constrangimento, moradores mencionam problemas de saúde, como complicações respiratórias, e o impacto direto no comércio local, que enfrenta a fuga de clientes e até o fechamento de estabelecimentos.
O vereador Pastor Angelino, morador do bairro e idealizador do debate, expressou o sentimento de frustração e desamparo da população: “O sentimento é de ser enganado pela Copasa. Os moradores sempre pagam a conta”.
O líder comunitário Fabiano Teixeira destacou ainda a preocupação com a possível ampliação da ETE, que inclui a construção de novos leitos de secagem de lodo, o que poderia agravar o problema do odor e aumentar a insatisfação dos moradores.
Ações da Copasa, parcerias e perspectivas para o futuro
Em resposta às reclamações, representantes da Copasa, como o superintendente de Tratamento de Esgoto Filipe Santos e a gerente Júlia Modesto, manifestaram compromisso em resolver a questão. A empresa firmou uma parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) para aprimorar as medições dos odores utilizando sensores e buscar soluções tecnológicas, como o aprimoramento dos biofiltros.
Além disso, está prevista a modernização de todo o parque de estações de tratamento da Copasa, substituindo o sistema anaeróbio pelo aeróbio, que promete eliminar a produção do gás sulfídrico e, consequentemente, o mau cheiro. Esse investimento foi anunciado em agosto de 2026 e prevê um aporte de cerca de R$ 36,8 milhões para a ETE Bananeiras, com início das obras somente em 2028 e conclusão esperada para 2030.
O deputado Lucas Lasmar, autor do pedido de audiência pública, criticou a demora e o valor investido, afirmando: “Com esse valor, é possível construir outra ETE em local diferente. A empresa vai persistir no erro? É inconcebível mais quatro anos vivendo assim”.
Fiscalização e diálogo são caminhos necessários, mas insuficientes
A Arsae-MG tem realizado fiscalizações e planeja novas inspeções na ETE Bananeiras. Segundo Lucas Pessoa, gerente de Fiscalização Operacional, o mau cheiro pode resultar de variados fatores, como vazão inadequada, falhas no tratamento ou lançamento irregular de esgoto. No entanto, ele destaca que paralisar o funcionamento da estação não resolveria o problema, pois isso implicaria o lançamento direto do esgoto no rio local, com consequências ambientais ainda piores.
O representante da agência defende que o melhor caminho é promover um diálogo estruturado entre a Copasa, a prefeitura e a comunidade para viabilizar soluções efetivas e duradouras.
Análise: por que o problema do mau cheiro persiste e qual o custo para Lafaiete
Esta situação envolvendo a ETE Bananeiras é um exemplo claro de um conflito ambiental com implicações sociais e econômicas profundas. O mau cheiro constante é mais do que um incômodo olfativo: ele afeta a saúde dos moradores, causa prejuízos ao comércio local e reduz o valor dos imóveis próximos à estação.
Além disso, a lentidão das soluções demonstra um desafio comum no setor público e privado: a dificuldade em implementar melhorias estruturais em tempo hábil para mitigar impactos ambientais. Investir R$ 36,8 milhões é importante, mas o cronograma atrasado projeta a conclusão das obras para daqui a mais quatro anos.
Enquanto isso, milhares de pessoas seguem convivendo com um problema que afeta diretamente sua qualidade de vida. A insuficiência das ações corretivas anteriores aponta para a necessidade de medidas mais agressivas e talvez até a realocação da estação para uma área menos impactada.
Por fim, é fundamental que o poder público mantenha a pressão sobre a concessionária e amplie a participação da sociedade civil para garantir transparência, fiscalização contínua e, sobretudo, respeito aos direitos dos cidadãos de Conselheiro Lafaiete.
Conclusão
O caso da ETE Bananeiras em Conselheiro Lafaiete evidencia a complexidade dos desafios na gestão do saneamento básico e seus reflexos em comunidades próximas. Embora haja esforços em andamento para modernizar a estação e reduzir o mau cheiro, a população exige respostas mais rápidas e eficazes.
Somente com uma atuação conjunta entre Copasa, órgãos reguladores e a comunidade será possível reverter um problema que se arrasta há 16 anos e que tanto prejudica a saúde, o bem-estar e a economia local. A espera para a realização das melhorias anunciadas não pode significar mais anos de desconforto para os moradores.
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Referência: correiodeminas.com.br
Revisado em 10 de agosto de 2026. Conteúdo revisado editorialmente antes da publicação.
Fontes consultadas: correiodeminas.com.br
















