O legado da imigração japonesa no Brasil vai muito além da gastronomia, da agricultura ou das tradições culturais. Passados 118 anos da chegada do navio Kasato Maru ao Porto de Santos, em 18 de junho de 1908, a influência japonesa continua moldando novos setores da economia brasileira. Um dos exemplos mais recentes está na indústria criativa, onde métodos de produção desenvolvidos no Japão começam a inspirar empresas nacionais que buscam transformar a cultura brasileira em produto de exportação.
A mudança acontece em um momento em que o Brasil se consolidou como um dos maiores consumidores de anime do mundo. Segundo levantamento divulgado pela Crunchyroll, o país ocupa a terceira posição entre os maiores mercados consumidores de animes fora do Japão e da China, atrás apenas dos Estados Unidos e da Índia. O cenário ajuda a explicar por que cada vez mais produtoras brasileiras passaram a enxergar nesse formato não apenas uma forma de entretenimento, mas também uma oportunidade de desenvolvimento cultural e econômico.
Apesar da enorme audiência, a maior parte das produções animadas brasileiras continua concentrada no público infantil. Para Mab Castro, CEO e cofundadora da Noches Produções, existe um espaço ainda pouco explorado no país.
“Historicamente, o Brasil produz muita animação infantil, mas existe um público jovem e jovem-adulto sedento por consumir histórias animadas com identidade brasileira. Não se trata apenas de fazer anime no Brasil, mas de criar um mercado para ele”, afirma.
É justamente nesse cenário que surge a Noches Produções, estúdio sediado em Niterói (RJ) que adotou integralmente o workflow japonês de produção para desenvolver obras autorais inspiradas no modelo industrial utilizado pelos grandes estúdios do Japão.
A proposta vai além da estética. O estúdio incorporou metodologias de desenvolvimento, divisão de etapas produtivas, construção de propriedades intelectuais e planejamento transmídia inspirados na indústria japonesa, mas aplicados a narrativas profundamente conectadas à realidade e cultura brasileira.
Modo de produção japonês, identidade brasileira
“Nós crescemos apaixonados pelos animes, mas queríamos ver a nossa cultura retratada ali. Nosso modo de produção é inspirado no modelo japonês, mas nossa alma é 100% brasileira”, afirma Carlos Vizeu, diretor e cofundador da produtora.
A aproximação com esse modelo nasceu de anos de pesquisa conduzidos por Vizeu e Mab. Fãs de animes desde a adolescência, os dois passaram a estudar não apenas as produções japonesas, mas principalmente a forma como a indústria do país estrutura seus processos criativos, desenvolve talentos e transforma propriedades intelectuais em produtos globais.
O resultado foi o desenvolvimento de Genius!, anime produzido integralmente dentro do workflow japonês adotado pela empresa. O projeto tornou-se um marco para a Noches e ajudou a consolidar uma visão de longo prazo: criar um ecossistema de animação capaz de competir internacionalmente sem abrir mão da identidade nacional.
“O Japão conseguiu transformar sua cultura em um produto global por meio do anime. A Coreia do Sul fez algo semelhante com os k-dramas. Acreditamos que o Brasil também tem potencial para exportar cultura, histórias e identidade por meio da animação”, afirma Vizeu.
Além das produções autorais, a Noches trabalha na estruturação de um estúdio-escola voltado à formação de novos profissionais interessados em aprender o workflow japonês de produção. A iniciativa busca ampliar a qualificação técnica da mão de obra brasileira e fortalecer uma indústria que ainda enfrenta desafios relacionados à formação especializada e à consolidação de modelos sustentáveis de negócio.
“Se não trouxermos a iniciativa privada para o jogo, investirmos em capacitação, tecnologia e ampliarmos os públicos-alvo, vamos continuar perdendo audiência para produtos estrangeiros”, avalia Mab.
Mais de um século após o início da imigração japonesa, a troca cultural entre os dois países continua produzindo novos resultados. Se no passado os imigrantes ajudaram a transformar setores como agricultura, comércio e indústria, hoje o intercâmbio de conhecimento também começa a impulsionar áreas ligadas à inovação, tecnologia e economia criativa.
Em um dos maiores mercados consumidores de anime do mundo, iniciativas como a da Noches revelam que o próximo capítulo dessa relação pode não estar apenas no consumo da cultura japonesa, mas na criação de uma animação brasileira capaz de conquistar o público global.
















