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Sombra e obscuridade: uma leitura da educação moderna da criança à luz de Hannah Arendt

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Em 1957, a filósofa judia alemã Hannah Arendt publicava, na Partisan Review, “A crise na educação.” texto que apresenta muitas teses com enorme potencial para interpretar o nosso tempo de crise: a Modernidade.

Uma dessas ideias é a de que as crianças – não somente as crianças, mas sobretudo elas – necessitam de sombra, do escuro para se desenvolverem, para viverem, integralmente, a vida.

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A vida é esse complexo e delicado sistema que nos dá condição, em última instância, de aprender, de nos conservarmos enquanto espécie e de transmitirmos cultura; transmitirmos o que somos. Sem a preservação da vida, inclusive a das outras espécies, nas suas condições as mais ideais, não há sentido para tudo o mais: para as sociedades, para a Humanidade.

O problema de base é que as formas como as sociedades se organizaram na Modernidade não permitem a manutenção da vida; não permite a manutenção da segurança necessária à educação das novas gerações e, por consequência, a manutenção do bem-estar demandado pelos adultos para o cuidado com as crianças; os adultos responsáveis pelas crianças: mães, pais e demais responsáveis, via de regra, todos nós os adultos que deveríamos nos sentir responsáveis por todos as crianças, adolescentes e jovens.

Essa segurança tem a ver com a manutenção da privacidade da infância, tem a ver, nos termos da própria Hannah Arendt, com a sombra, com a necessidade que temos da escuridão que nos caracteriza os momentos de gestação antes do nascimento como tem a ver com os momentos de recolhimento que precisamos no morrer e antes da morte e com todos os outros momentos de crise.

As sociedades modernas descuraram deste aspecto imprescindível da criação, do cuidado com as novas gerações, do cuidado com as sociedades, com a humanidade em cada um de nós assim como com a Humanidade como um todo.

Já é tempo – se ainda já não passou do tempo – de voltarmos os nossos olhos e nossos olhares, novamente, para as coisas que realmente importam: o cuidado com as novas gerações na proteção que conseguirmos oferecer a elas; na separação entre o espaço/tempo privado da vida da criança e de suas famílias do espaço/tempo da vida pública que vem se mostrando implacável na destruição das condições de bem-estar geral.

Tempos de crise como os que estamos vivendo com a pandemia e com a Modernidade não precisam ser tempos de obscuridade, de dificuldades criadas por ignorância, orgulho de classe, ideologia infundadas, utopismo! Tempos de crise como os que estamos vivendo podem ser tempo de superação por meio de diálogo respeitoso e responsável que considera as diferenças sem desconsiderar as possibilidades e potencialidades do encontro para a informação com vistas ao conhecimento; para projetos em todas as áreas sociais, mas sobretudo projetos de educação capazes de aliar, no presente tempestuoso, passado e futuro; tradição e inovação.

Paulo HR Monteiro, prof.

Astrolabium Educacional

Assessoria, consultoria e qualificação profissional

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