Protestos nas Olimpíadas 2026 desafiam neutralidade
Protestos nas Olimpíadas 2026 desafiam neutralidade e colocam em xeque a postura apolítica tradicionalmente defendida pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) às vésperas dos Jogos de Inverno de Milão-Cortina.
Escalada de tensões antes da cerimônia de abertura
Centenas de manifestantes foram às ruas da Itália no último fim de semana para criticar a presença de agentes do ICE dos Estados Unidos, movimento que evidenciou a crescente insatisfação popular com temas externos ao esporte. O deputado italiano Riccardo Magi empunhou cartaz exigindo o banimento dos agentes, sinalizando que o clima político poderá ter reflexos diretos durante o megaevento.
Regra 50.2 sob pressão
O COI mantém na Carta Olímpica a Regra 50.2, que proíbe “demonstrações ou propaganda de natureza política, religiosa ou racial” em locais olímpicos. Apesar da proibição, especialistas contestam a eficácia da norma. Julie Stevens, professora de gestão esportiva da Universidade Brock, questiona se a entidade possui legitimidade suficiente para conter manifestações diante do que o primeiro-ministro Mark Carney classificou como uma “ruptura global” marcada por crises financeiras, sanitárias, energéticas e geopolíticas.
Histórico de protestos no pódio
Episódios recentes mostram que o ambiente olímpico nem sempre permanece neutro. Na Rio 2016, o maratonista etíope Feyisa Lilesa cruzou a linha de chegada com os braços em X para apoiar o povo Oromo. Em Tóquio 2020, a norte-americana Raven Saunders repetiu o gesto no pódio do arremesso de peso, sendo investigada pelo COI. Antes, em Londres 2012, o suíço Michel Morganella foi expulso por tweets ofensivos à Coreia do Sul.
Torcidas ganham protagonismo
As arquibancadas também têm exibido descontentamento. No torneio 4 Nations Face-Off de 2025, torcedores vaiaram o hino dos Estados Unidos em jogo contra a Finlândia. Situação semelhante ocorreu em partidas do Toronto Raptors pela NBA, refletindo um sentimento de rivalidade que se mistura a pautas políticas. Para Bruce Kidd, ex-atleta olímpico e professor emérito da Universidade de Toronto, “os fãs vão porque amam esportes, mas este é um tempo sem precedentes”.
Expectativa de novos atos em Milão-Cortina
Pesquisadores apontam que os atletas tendem a seguir orientações rígidas de conduta, mas a crescente “autoafirmação” pode criar brechas para gestos simbólicos durante as competições. Christine Dallaire, da Universidade de Ottawa, prevê partidas carregadas de significado: “Não será apenas vencer os EUA, mas derrotar Donald Trump simbolicamente no gelo”.

Imagem: Adriana Fallico Global
Embora o juramento olímpico reforce o compromisso com “fair play, inclusão e igualdade”, especialistas observam que o texto tem valor mais simbólico do que prático. Caso protestos se intensifiquem, caberá ao COI decidir entre aplicar sanções ou revisar a rigidez da Regra 50.2 para acomodar vozes que pedem espaço.
Com a proximidade da cerimônia de abertura, a pergunta que ecoa é: conseguirão os organizadores preservar a tão alardeada neutralidade ou 2026 marcará uma nova era de ativismo olímpico?
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Crédito da imagem: AP Photo/Andrew Medichini















