O FUTRICAR DA VIDA

O FUTRICAR DA VIDA

Neste sábado que faz congelar o sangue, tarde repleta de iniquidade humana, vou contar carneiros que nunca vislumbrei, verei fantasmas que receberei graciosamente e serei mais triste ainda. Existe sim, a ideia, representação que se forma no meu espírito, ainda que diminuta, deficiente, de embeber a alma com muito álcool desnaturado. Nesse pessimismo todo, tendência para julgar tudo mau, completo, outrossim, a imensa vantagem em não esperar nada de tudo e tudo do nada. Digo que os espectros da vida, imagem fantástica dos mortos, me trouxeram abutres que pensei iria me esquecer. Preciso castigar esse dramalhão, essa chama de ação ridiculamente exagerada, que me acompanha, venha de onde vier o que vá para qualquer lugar. Por certo não existe inferno, essa grande confusão ou gritaria, meridional, setentrional, e, para rimar, de forma ilegal, inferno astral. Não padeço e não vou padecer sobre ou sob um mármore basculho. Quero ao final de tudo, futricar, negociar fazendo trapaças, chatinar com as lágrimas de um planeta inteiro de céu falacioso. Não tenho mesmo nenhum escrúpulo, minúcia ou erudição em rabiscar avisos sem sentido na falseta deste inverno tosco, rústico, grosseiro, malfeito. Existe sim, muita e intensa comédia, impostura, fingimento, nesta vida de hoje. Advirto-lhes até, que os pássaros não cantam mais, eles fingem uma espécie de canto sob a forma de pedra (rochas) que afunda na água de todo riacho imaginário, tal qual a infância que passou.

Sílvio Lopes de Almeida Neto

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