Em Minas Gerais, onde a religiosidade se mistura com a arte e a história, há um som que há séculos atravessa o tempo e a alma: o toque dos sinos. Em cidades como São João del-Rei, essa prática não apenas sobrevive, mas encanta e resiste como um dos símbolos mais autênticos da cultura mineira.
Reconhecida como Patrimônio Imaterial de Minas Gerais desde 2009, a tradição dos sinos é passada oralmente entre gerações, mantendo viva uma linguagem única que comunica sentimentos, celebrações e lutos. Em um tempo de modernidade e silêncio urbano, os sineiros mineiros seguem tocando manualmente os sinos das igrejas históricas, com técnica, fé e emoção.
Uma linguagem que fala ao coração
Os sinos não tocam aleatoriamente. Em São João del-Rei, os toques seguem uma codificação tradicional, com variações conforme o tipo de missa, procissão, anúncio de falecimento ou festividade religiosa. A combinação de tons — agudo, médio e grave — cria um verdadeiro “diálogo sonoro” que, para os moradores, “fala com o povo”.
“O sino não só chama, ele comunica. Diz quando é festa, quando é luto, quando a cidade deve parar e ouvir. É como se fosse uma língua própria”, explica o mestre sineiro Samuel Nunes, que desde jovem aprendeu os toques com o avô e hoje é uma das principais referências vivas dessa tradição em Minas Gerais.
Patrimônio que resiste ao tempo
A cidade de São João del-Rei abriga mais de cinco igrejas históricas com torres equipadas com sinos centenários. A técnica de toque exige conhecimento e coordenação física, já que os sineiros puxam as cordas com força e ritmo, muitas vezes em alturas elevadas e sob condições climáticas adversas.
Além de São João del-Rei, cidades como Ouro Preto, Congonhas, Mariana e Sabará também preservam essa prática, com eventos e oficinas voltados à formação de novos sineiros e ao estímulo da preservação cultural.
Oficinas e valorização cultural
Neste mês de julho, dentro da programação do Festival de Inverno de Mariana, será realizada uma oficina de sineiros, com aulas práticas e históricas sobre os significados de cada toque. O evento será gratuito e voltado para jovens, religiosos e interessados em tradições culturais mineiras.
A Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais (Secult-MG) também apoia projetos de valorização do patrimônio imaterial e estuda a ampliação do reconhecimento da prática em âmbito nacional, com vistas a um possível registro no Iphan como Patrimônio Cultural do Brasil.
Um som que não deve se calar
Em tempos de modernização litúrgica, a valorização dos sineiros e a transmissão desse conhecimento tradicional são desafios enfrentados por paróquias e comunidades locais. Ainda assim, iniciativas como a do Festival de Inverno e o trabalho de mestres como Samuel Nunes reacendem a esperança de que os sinos continuarão a tocar — não só nos ouvidos, mas também na alma dos mineiros.















