Confira a crônica do advogado e escritor Sílvio Lopes: O Empório de Santo Antônio das águas benditas

Confira a crônica do advogado e escritor Sílvio Lopes: O Empório de Santo Antônio das águas benditas

No velho Empório, que não era um centro de comércio internacional, mais que um mercado, de certo que sim, na realidade um armazém, uma diminuta loja de secos e molhados e bêbados engalfinhados com suas mulheres. Mulheres de qualquer nacionalidade, modalidade, ainda assim, mulheres de olho no presente e no futuro. Empório nominado Santo Antônio das Águas Benditas, localizado na esquina do beco sem nome. Mesmo que não venham a acreditar, muitos estrangeiros, encostados no balcão de madeira carcomida, aportavam e negociavam ali. A alma de todos e de todas, parte importante e imortal daqueles seres, era moeda de troca. Me acostumei adentrar ao local pelo tempo suficiente para ingerir um trago e dirigir-me para a alameda, uma rua orlada de árvores de sombra. Rotineiramente uma senhora com dois cães inúteis passava pelo local e se imaginava escrevendo sobre o tema, afinal balbuciava ”nada é nada”, assim posso escrever sobre as árvores e o caminho orlado por elas. Não sendo um dicionário vivo, uma pessoa erudita, acredito que ela consiga. Lembrei-me de Nietzsche “mas há sempre um pouco de razão na loucura” e eu estava completamente louco. A capacidade de detonar, abafar, arrasar e prejudicar tudo era meu mister, intuito, propósito, um sem fim. “AS PALAVRAS” sempre burlaram meu cérebro alcoolizado, ébrio, bêbado, embriagado, e no mais, tratado ou misturado com álcool. Retrocedi, então, e na minha decadência moral e espiritual tomei a resolução de mais uma vez adentrar, embrenhar-me no Empório. Esperei sorver dois copos com sujidade plena, repletos de aguardente da cabeça, escorei-me no balcão carcomido e em seguida na porta principal e única e me arrojei diretamente na “rua” (um beco de terra). De tudo isso somente restou a lembrança do que acontecera em um espaço de tempo em que o sol estava abaixo do horizonte.

Sílvio Lopes de Almeida Neto, Setembro 8, 2022

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