Nova mascote do Cruzeiro enfrenta ataques misóginos
Nova mascote do Cruzeiro enfrenta ataques misóginos. A apresentação da Cabulosa, personagem criada para representar o time feminino celeste, ocorreu pouco antes da goleada por 4 a 0 sobre o América e, ao mesmo tempo em que empolgou torcedoras, expôs uma onda de comentários machistas e homofóbicos nas redes sociais.
Nova mascote do Cruzeiro enfrenta ataques misóginos
O vídeo divulgado pelo clube e republicado pelo perfil No Ataque recebeu dezenas de mensagens depreciativas: “representou bem as Marias”, “parece LGBT” e “nem peito tem” foram algumas das reações. Para a pesquisadora Rafaela Souza, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), esses ataques evidenciam como a misoginia se manifesta no cotidiano do futebol.
Segundo Rafaela, o esporte foi “cultural e historicamente pensado para homens”, e qualquer tentativa de colocar a mulher no centro da narrativa é vista como intromissão. “Quando o Cruzeiro dá voz a uma figura feminina, a lógica de inferiorizar o feminino aparece imediatamente”, explica.
A especialista recorda que o futebol feminino chegou a ser proibido no Brasil entre 1941 e 1979. Mesmo após a liberação, termos pejorativos que remetem ao feminino — como “Maria” para cruzeirenses e “franga” para atleticanos — seguem como instrumentos de ofensa. “A misoginia se reafirma nas pequenas falas do dia a dia”, ressalta.
Os comentários também escancararam homofobia. A ausência de características hipersexualizadas na mascote bastou para levantar suspeitas sobre sua sexualidade. “Basta a mulher não cumprir certos atributos para ser classificada como LGBT”, pontua Rafaela, reforçando a conexão entre machismo e preconceito contra pessoas LGBTQIA+.
Nas redes, surgiram ainda especulações de que a Cabulosa deveria ser esposa do Raposão ou mãe do Raposinho, projeção que, para a pesquisadora, demonstra a insistência em enquadrar a mulher em papéis tradicionais. “Ninguém questiona o corpo do Raposão, mas o dela já é vigiado desde o primeiro minuto”, observa.

Imagem: Gustavo Martins
Iniciativas que valorizam o futebol feminino fazem parte de um movimento global de combate à desigualdade de gênero no esporte, como defende a ONU Mulheres. Contudo, o episódio mostra que conquistar respeito ainda exige enfrentar narrativas de ódio enraizadas.
No Cruzeiro, a diretoria mantém o plano de usar a Cabulosa como símbolo de incentivo às categorias femininas e de promoção de debates sobre inclusão. A expectativa é que a personagem apareça em ações sociais, campanhas publicitárias e materiais voltados a torcedoras.
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Crédito da imagem: Gustavo Martins/Cruzeiro















