ESCADA

ESCADA

Na escada, nessa escada, não se sobe e nem se desce. Um homem se encontra infeliz. Na verdade não há felicidade. Não existe, outrossim, infelicidade que suba ou desça com ele. Existem, isto sim, os vizinhos da escada. Os avizinhados do bar não lhe aconselham em nada, mesmo porque, nada merece conselhos de qualquer sorte. Na escada um homem velho, velho de alma e quase budista, procura sonhos ainda que exilados todos eles. A escada quer conversa, entretanto, não há mais o que e sobre o que conversar. Todos os degraus são frios, silenciosos, de causar inveja aos timoratos. Os insólitos reclames, lágrimas derramadas, tudo filtrado e regurgitado já no primeiro degrau. No segundo só existia metade de um homem. No terceiro e seguintes, apenas um espelho vomitando sombras. A escada jamais se escusou por ser culpada de todos os males. O homem decrépito não pedia nada, eis a verdade que vos digo. Não existe mais o que pedir. Sobe despacio, sem apoio, sem lastro, quase sem vida, repleto de uma paz que nunca foi (…) Escada virulenta que gosta de mercadejar com a alma dos outros homens.

Sílvio Lopes de Almeida Neto

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