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Resumo:
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Alerta na saúde mental: Dados recentes do IBGE e de estudos internacionais revelam o crescimento alarmante de transtornos como ansiedade e ideação suicida entre crianças e adolescentes no Brasil.
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Fatores de risco e impacto: Especialistas apontam que a pressão excessiva, a vulnerabilidade familiar e a falta de acolhimento paralisam os jovens, afetando o aprendizado, o comportamento e as relações sociais.
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A importância da escuta: Médicos e psicólogos reforçam que a ansiedade muitas vezes se manifesta no corpo, tornando essencial a presença de adultos disponíveis para acolher e escutar sem julgamentos.
Especialista explica que o medo do erro e a busca por confirmação constante paralisam os alunos; dados da PeNSE/IBGE mostram que 42,9% dos estudantes convivem com irritação e mau humor frequente
Minas Gerais – Outubro de 2026. A saúde mental de crianças, adolescentes e jovens brasileiros ganha novos contornos diante de números recentes que apontam para a presença cada vez mais precoce de ansiedade e outros transtornos mentais. Dados divulgados neste ano pela Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), conduzida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelam que estudantes de 13 a 17 anos ouvidos em escolas públicas e privadas de todo o país, 18,5% afirmaram pensar, sempre ou na maioria das vezes, que a vida não vale a pena ser vivida.
As estatísticas mostram ainda que 42,9% dos alunos relatam sentir irritação, nervosismo ou mau humor frequente por qualquer motivo, enquanto quase três em cada dez estudantes convivem com sentimentos constantes de tristeza. A médica psiquiatra da Infância e Adolescência da Afya Educação Médica Montes Claros, Dra Carla Caroline Vieira, explica que a adolescência é, por natureza, um período de turbulência psíquica, de busca por identidade, de elaboração dos lutos pelas perdas da infância e de experimentações.
“É esperado que o jovem teste limites, tenha oscilações de humor, queira se isolar um pouco mais ou questione regras familiares. A diferença para um transtorno mental está na intensidade, frequência e duração dessas manifestações, além do impacto na vida do adolescente. Uma reação comum tende a ser passageira e ligada a um evento específico, enquanto o transtorno mental envolve um sofrimento mais persistente e paralisante. A tristeza deixa de ser apenas um dia ruim, e a irritabilidade pode se tornar um estado constante, comprometendo o diálogo e a convivência”.
A pesquisa do IBGE também apontou que as questões emocionais é alimentada por fatores de vulnerabilidade no ambiente social e familiar, com 26,1% dos jovens declarando sentir que ninguém se preocupa com eles, mais de um terço relatou desentendimento ou falta de compreensão por parte dos pais sobre seus problemas, e um em cada cinco afirmou ter sofrido agressão física por parte de um responsável.
“Quando o ambiente familiar e comunitário deixa de ser um porto seguro e passa a ser fonte de ameaça ou desamparo, o cérebro em desenvolvimento se adapta à sobrevivência, podendo gerar hipervigilância, medo crônico e desregulação emocional. A falta de apoio faz com que o jovem enfrente dores imensas de forma solitária. Situações de violência, seja física, psicológica ou decorrente de negligência, rompem o vínculo de confiança essencial para um desenvolvimento psíquico saudável. Muitas vezes, o sofrimento mental é a linguagem possível que o corpo encontra para denunciar que o ambiente ao redor se tornou insustentável”, complementa a médica.
Consequências e falta de bem-estar
Neste ano foi publicado na revista The Lancet Regional Health Américas e baseado em estimativas do estudo Global Burden of Disease (GBD), uma pesquisa que indica que a ansiedade se tornou a principal causa de incapacidade não fatal no Brasil desde a primeira infância, liderando esse ranking na faixa dos 5 aos 9 anos e mantendo a liderança em todas as etapas até a vida adulta jovem.
Ao todo, estima que 15,6 milhões de brasileiros entre 5 e 29 anos, equivalente a 20,91% dessa população, vivem com pelo menos um transtorno mental. O levantamento aponta que a prevalência cresce de maneira contínua com a idade, surgindo com 12,06% entre crianças de 5 a 9 anos, evolui gradativamente e alcança 24,95% no grupo de 25 a 29 anos. Paralelamente, cerca de 2,5 milhões de jovens nessa mesma amplitude etária preenchem critérios diagnósticos para transtorno por uso de substâncias, como álcool e outras drogas.
A psicanalista e psicóloga da Afya Contagem, Dra Andréa Chicri Torga Matiassi, comenta que a criança não deve ser compreendida apenas como alguém que “tem ansiedade”, mas como um sujeito que pode expressar, por meio do corpo e do comportamento, algo que ainda não consegue elaborar ou colocar em palavras. A ansiedade pode surgir diante de separações, perdas, mudanças, conflitos familiares ou expectativas excessivas. Por isso, mais do que eliminar rapidamente o sintoma, é importante escutar o que ele comunica sobre a experiência da criança e o contexto em que ela vive.
“O termo “produtividade” para as crianças também precisa ser utilizado com cuidado, pois elas não devem ser avaliadas pelo desempenho. A ansiedade pode afetar a capacidade de aprender, brincar, estabelecer vínculos e participar das atividades próprias da idade, comprometendo atenção, memória, sono e autonomia. Na escola, a criança pode evitar tarefas por medo de errar, buscar confirmação constante ou apresentar redução no envolvimento e na aprendizagem. Em alguns casos, pode parecer desinteressada ou desobediente quando, na realidade, está paralisada pelo medo. Assim, os transtornos de ansiedade podem interferir de forma significativa na vida escolar e nas relações sociais”.
Dra Andréa Chicri ressalta que uma experiência que pode parecer simples para um adulto pode ter um peso maior para uma criança ou adolescente. A presença de adultos disponíveis para escutar, uma rotina equilibrada, momentos de descanso e lazer, vínculos familiares seguros e relações positivas na escola contribuem para a proteção da saúde mental. “É importante que a criança ou o adolescente perceba que pode falar sobre seus medos e dificuldades sem ser criticado, apressado, julgado ou desvalorizado. Muitas vezes, sentir-se escutado e acolhido é o primeiro passo para compreender e enfrentar a ansiedade”, conclui a especialista da Afya.

















