Por Daniel Tieppo, especialista em cibersegurança e Diretor Executivo da Hexa Security
No cenário corporativo atual, enfrentamos o que chamo de “o paradoxo do cheque em branco”. Existe uma crença perigosa de que a cibersegurança é um problema puramente financeiro, que pode ser resolvido apenas empilhando softwares de última geração. No entanto, o que observamos no mercado é que orçamentos vultosos, quando mal direcionados, muitas vezes compram apenas uma ilusão. O investimento global em segurança deve atingir a marca de US$ 213 bilhões em 2025, segundo o Gartner, e ainda assim as violações continuam batendo recordes de sofisticação.
A realidade nua e crua é que investir mais não é sinônimo de estar mais seguro. O relatório Cost of a Data Breach 2025, da IBM, revela que o custo médio de uma violação no Brasil subiu para R$ 7,19 milhões. O dado mais irônico? Empresas com ecossistemas de segurança excessivamente complexos e fragmentados levam, em média, 241 dias para identificar e conter uma ameaça. Ter 50 soluções que não se comunicam não é proteção; é a criação de pontos cegos que o atacante usará a seu favor.
O abismo da governança e o fator humano
A tecnologia é um pilar, mas sem estratégia ela se torna um fardo. Atualmente, vivemos a era da “Shadow AI” (IA invisível): cerca de 63% das organizações ainda não possuem políticas de governança para o uso de Inteligência Artificial por seus colaboradores. Isso significa que, enquanto a diretoria investe em firewalls robustos, as vulnerabilidades entram silenciosamente por ferramentas de IA não monitoradas, que já estão ligadas a 20% das violações de dados reportadas recentemente.
Além disso, não podemos ignorar que a segurança digital continua sendo uma disciplina de pessoas. Estimativas de 2025 indicam que entre 68% e 74% das invasões bem-sucedidas ainda envolvem o elemento humano, seja por falha de processo, credenciais roubadas ou engenharia social. A “falsa sensação” nasce quando o executivo foca no dashboard tecnológico e esquece de treinar a sua primeira linha de defesa: o colaborador. O firewall mais caro do mundo é inútil contra um clique mal treinado.
Fragmentação tecnológica gera “fadiga de alertas”
Equipes de TI sobrecarregadas por milhares de notificações diárias acabam ignorando sinais críticos de invasão. Defendo que a segurança eficiente é aquela que prioriza a visibilidade e a orquestração. É preferível ter cinco ferramentas operando em sinergia total do que vinte operando em silos isolados. A proteção real não é comprada em prateleira; ela é construída através da maturidade operacional.
Outro ponto cego frequente é a negligência com terceiros. Em 2025, ataques que exploram a cadeia de suprimentos e parceiros de negócio já representam 30% dos incidentes. Investir pesado “dentro de casa” e ignorar a higiene digital dos seus fornecedores é como colocar uma porta blindada em uma parede de papel. A segurança moderna exige uma visão holística que transborda as fronteiras da própria empresa.
Para 2026, a projeção é que os gastos em segurança aumentem mais 12,5%, chegando a US$ 240 bilhões. Mas o sucesso não virá para quem gastar mais, e sim para quem gastar melhor. Precisamos migrar da cultura da “acumulação de ferramentas” para a cultura da resiliência e orquestração. É preferível ter uma estrutura enxuta, mas totalmente integrada e com processos claros de resposta, do que um arsenal tecnológico desgovernado.
O papel do líder de segurança hoje é ser um gestor de riscos, não um comprador de softwares. A proteção real não é um produto que se adquire, mas um estado de vigilância contínua que equilibra tecnologia de ponta, governança de IA e educação humana. No xadrez da cibersegurança, vence quem tem a melhor estratégia, não quem tem as peças mais caras.
*Daniel Tieppo é especialista em tecnologia e telecomunicações, com mais de 20 anos de experiência no setor. Formado em Ciência da Computação e Gestão Comercial, construiu sua carreira em empresas como Olitel Telecom, Vocalcom e Alcatel-Lucent Enterprise. Atualmente, é Diretor Executivo e cofundador da HexaDigital, empresa do grupo MakeOne focada em projetos de cibersegurança, infraestrutura e conectividade para empresas, onde lidera iniciativas estratégicas e representa a marca em grandes eventos do setor.
















