Chica da Silva: Mary Del Priore refuta mitos históricos
Chica da Silva volta ao centro do debate histórico no livro “Meu nome é Francisca”, em que a historiadora Mary Del Priore derruba a figura folclórica e hipersexualizada popularizada pelo cinema e pela TV.
Chica da Silva: Mary Del Priore refuta mitos históricos
A obra, lançada pela José Olympio, foi construída a partir de extensa pesquisa documental. Ao narrar em primeira pessoa, Del Priore oferece ao leitor a voz de uma mulher negra alforriada que prosperou no Arraial do Tijuco, atual Diamantina, entre 1730 e 1796. Em vez de ressaltar suposto poder sexual, a autora enfatiza a trajetória de mobilidade social, administração de patrimônio e educação dos 13 filhos que Chica teve com o contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira.
Para a pesquisadora, trocar o “mito da sexualizada” pelo “mito da empoderada” também distorce o passado. Segundo Del Priore, Chica representa uma entre várias mulheres libertas que formavam o segundo grupo mais rico das Minas Gerais no século XVIII, atuando no comércio, na produção têxtil e na gestão de escravizados – posse entendida à época como indicador de status.
A historiadora destaca que, apesar de ser ex-escravizada, Chica acumulou quase 600 cativos, diversas fazendas e joias. Documentos revelam que ela respeitava os ritos católicos, apadrinhava crianças e se preocupava em garantir herança aos descendentes. “É uma sociedade fluida, mas com laços familiares sólidos”, afirma Del Priore.
O livro também revisita a influência africana nos costumes coloniais, do vocabulário ao conceito de família poligâmica. De acordo com Del Priore, compreendê-la apenas pelo viés de vitimização apaga a agência de mulheres que negociavam relações, recusavam parceiros e empreendiam. “Não vale a pena trocar um estereótipo por outro”, resume.
Para ampliar a discussão, a autora reconhece trabalhos de historiadores como Eduardo Paiva e Júnia Furtado, além de pesquisas linguísticas de Yeda Pessoa de Castro. Esses estudos, disponíveis em fontes acadêmicas e em referências como a Enciclopédia Itaú Cultural, fundamentam a reconstrução da personagem.

Imagem: Pense D
No posfácio, Del Priore reforça seu compromisso com acessibilidade: “Quero que a história chegue a leitores além dos muros universitários”. O tom literário, segundo ela, serve para aproximar o público sem abrir mão do rigor acadêmico, sustentado por notas e bibliografia completa.
Chica da Silva, portanto, surge não como heroína feminista nem como símbolo de libertinagem, mas como figura complexa de uma sociedade marcada por escravidão, fé católica e redes de proteção. A nova leitura convida o público a repensar identidades que moldam o Brasil contemporâneo.
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Crédito da imagem: Pense D/Divulgação















